E já dizia Fernando Sabino: “da queda um passo de dança”

Foto: Marco Favero/Lente Quente

Atividades direcionadas a deficientes visuais pretendem melhorar qualidade de vida

por Diandra Nunes

Um lugar composto por vários espelhos e barras fixas poderia passar por uma sala de balé qualquer, a não ser pelo fato de que ali acontecem as aulas do Dança Sem Limites. Como cheguei adiantada resolvi esperar do lado de fora da sala, observando que um grupo pequeno já se formava lá dentro.  Retirei a câmera fotográfica da bolsa, verifiquei a velocidade do obliterador e comecei fotos aleatórias para testar a luz e o enquadramento. Atividade que não passou despercebida por alguns dos participantes, que me olhavam com curiosidade. Como a professora responsável pelo projeto ainda não tinha chego, resolvi conversar com os pais e acompanhantes dos alunos. As respostas foram sempre positivas, o Dança Sem Limites significava qualidade na vida daquelas pessoas. Aos poucos o grupo ficou completo e a professora Débora Wolf chegou pontualmente à 13:30, horário em que aulas costumam começar.

Não me apresentei logo de cara, esperei ela cumprimentar todos os alunos, e se preparar para aula. Débora notou minha presença, mas ao invés de me conceder a entrevistar pediu para que eu acompanhasse a aula do começo ao fim e depois fizesse as perguntas que julgasse necessárias. Concordei sem hesitar.

Para quem já fez algum tipo de dança, sabe, que toda aula começa com um alongamento. No Dança Sem Limites não foi diferente, a não ser pelo fato que as atividades que são desenvolvidas ali são direcionadas para pessoas que possuem alguma deficiência, seja ela física ou psicológica. São duas professoras que atendem alunos com diversas patologias, mas a maioria possuía deficiência visual, sofreram algum acidente ou até mesmo foram vítimas de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Com auxílio das professoras, os alunos desenvolviam os passos e acompanhavam a coreografia. Se eu pudesse descrever o Dança Sem Limites em uma palavra, seria superação. Aquelas pessoas apesar de suas dificuldades tinham encontrado outro modo de encarar a vida. Viver a vida pela perspectiva da dança.

Naquele dia, Débora ensaiou várias coreografias, mas uma em especial me chamou atenção. Um menino e uma menina com deficiência visual estavam ensaiando parte da música “I’ve had the time of my life”, tema do filme Dirty Dancing, traduzido em português como “Ritmo quente”. O filme foi lançado em 1987 e conta a história de uma menina que ao passar as férias em um resort, se apaixona por seu instrutor de dança. “Dirty Dancing” ganhou um Oscar e um Globo de Ouro, na categoria melhor canção original (I’ve Had The Time of my life). A coreografia protagonizada pelos atores no final do filme virou uma febre entre os adolescentes em todo o mundo e mesmo 25 anos depois de seu lançamento, a coreografia virou moda em festas de casamento.

As pessoas que possuem deficiência visual têm os outros sentidos mais aguçados como, por exemplo, o tato e também a audição. Por isso, a coreografia executada por eles, apesar de ser a mesma protagonizada no filme, se tornou tão diferente. O modo em que seguravam um no outro para dar continuidade aos passos era muito mais suave, priorizando o toque das mãos e que de certa forma também ajudava na delimitação do espaço em que estavam dançando. Era impossível não sorrir e também quando ouço a música “I’ve had the time of my life” tocar, essa é uma das lembranças que me vem a cabeça.

Durante o intervalo, Débora aproveitou para falar comigo. Nós conversamos do lado de fora da sala, enquanto lá dentro se formava uma grande algazarra. Débora sorriu para mim como se pedisse desculpas, mas ao mesmo tempo parecia muito satisfeita com o trabalho que estava realizando. Ela me contou que já tinha trabalhado com pessoas especiais antes de ser convidada para coordenar o “Dança Sem Limites”. Ela afirmou que ensiná-los é uma forma de descobrir o movimento de cada um e dessa forma realizar uma troca de experiências. “Cada um oferece um pouco de si, eles são pessoas especiais não só no sentido da deficiência, são especiais por tudo que eles carregam de bagagem e de superação, eu acho que essa é a palavra chave do projeto” disse.

Terminei a entrevista e ela logo recomeçou a aula, eu gostaria muito de ter falado com o garoto que estava dançando Dirty Dancing. Mas por falta de tempo e também por falha minha deixei este detalhe escapar. Algum tempo depois o encontrei por sorte na APADEVI, Associação de Pais e Amigos do Deficiente Visual onde estava fazendo uma matéria sobre atividades voltadas a deficientes visuais. Ele passou por mim e minha mente deu um estalo. Perguntei a secretaria se ele costumava participar do “Dança sem limites”, ela respondeu que sim e o chamou para que eu pudesse entrevistá-lo. Pedro era seu nome, ele me contou que a mãe tinha contraído rubéola quando estava grávida. Desde então Pedro teve várias complicações, mas foi perder a visão definitivamente quanto completou 6 anos, agora Pedro tem 16 anos. Contei que o tinha visto dançar e perguntei o que aquilo significava para ele. Ele sorriu e disse que já gostava de dançar antes de participar do projeto e que era um modo dele se distrair. “Lá eu me sinto bem, me sinto em casa” Pedro completou.

Quando visitei a APADEVI pela primeira vez, demorei a encontrá-la. Os moradores pareciam conhecer pouco a organização não-governamental, que já existia no bairro de Olarias em Ponta Grossa, por 26 anos. A APADEVI funciona como uma escola com atividades voltadas para os deficientes visuais. Ronilda Santos, vice-presidente, me explicou que a ONG atende pessoas de todas as idades, lá eles oferecem aulas para que essas pessoas adquiram novamente as condições básicas para sua independência como também aprendem o ensino do Braille e também do Sorobã. Logo a vice-diretora me passou para um dos professores que leciona na APADEVI, com o propósito de explicar melhor como é o método de aprendizagem.

William Lobo, professor de Braille, diz que a maioria das pessoas que chegam na APADEVI não são deficientes visuais congênitos, geralmente elas perdem a visão por razão de alguma doença ou acidente e desta forma, precisam ser alfabetizadas novamente, só que em Braille. O Sistema Braille foi inventado em 1825, é um  código que utiliza seus pontos em relevo, dispostos em duas colunas e que possibilita a formação de 63 símbolos diferentes que são empregados em textos, contas matemáticas em vários idiomas. William me contou ensinar para pessoas que possuem deficiência é inovar nas estratégias para aprendizados, as vezes tem que usar métodos que não são convencionais. “ Cada pessoa tem seu tempo para aprender” diz.

A APADEVI realiza atividades voltadas a educação física,  artesanato, também atividades extraclasse e todos os alunos são acompanhados pelo psicólogo Antonio Luciano Soares. “O maior problema deles é a depressão, a dificuldade de relacionamento, porque no caso de quem enxergava e perdeu a visão, eles ficam naquela expectativa que um dia vai voltar a enxergar, e quando percebem que não tem cura, a aceitação do problema é muito mais difícil”, explica o psicólogo. Antonio completa que além do preconceito que existe na sociedade, é necessário realizar um trabalho para analisar o comportamento da família das pessoas que possuem deficiência visual, “ o preconceito começa dentro de casa” finaliza.

Já era meio dia quanto terminei meu ciclo de entrevistas na APADEVI, vários alunos estavam reunidos na cozinha, onde o almoço seria servido. Quando saí pela porta,ainda era possível ouvir a oração que estavam fazendo, logo as vozes explodiram em um hino de Igreja Católica muito conhecido; “Ao senhor agradecemos aleluia, ao alimento que teremos, aleluia…”.Quando olhei para trás Pedro estava lá, conversando animadamente com os colegas.

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