PERFIL – Uma vida, uma sentença

Por Mariane Nava

Em julho de 2005, a corporação sentiu a necessidade de aumentar o quadro de colaboradores para atender as mais de nove mil ocorrências anuais. Além do combate a incêndios, os bombeiros auxiliam em resgates, fiscalizações de saídas de emergência e existência de extintores e também no atendimento pré-hospitalar (APH). Grande parte das saídas são para ocorrências do tipo APH. Para ampliar o número de atendimentos foram abertas inscrições para a primeira turma de bombeiros voluntários femininos, que exerceriam as mesmas funções dos bombeiros masculinos. Das 50 mulheres inscritas, 30 foram selecionadas de acordo com os critérios físicos e psicológicos.

O curso iniciou em setembro. Foram 30 dias de aulas teóricas e práticas e mais 40 horas de estágios práticos supervisionados nas Unidades de Suporte Básico (ambulâncias). Além do APH, as futuras bombeiras tiveram noções de combate a incêndios e resgate veicular. Ao final, no dia 20 de fevereiro de 2006, 27 mulheres foram efetivadas como Bombeiros Voluntários Femininos. Entre elas, Terezinha Andrighetti Nava.

Primeira turma de bombeiros voluntários femininos de Caçador

Terezinha nasceu no município de Caçador no dia 01 de dezembro de 1966. Filha de agricultores morou parte da infância na zona rural. O pai, Marcelino Andrighetti, vivia doente. A situação era difícil, sozinha, ZemiraSanguaniniAndrighetti precisava sustentar a casa e cuidar dos oito filhos do casal. Apesar dos esforços não foi possível manter as crianças e a alternativa foi deixar cada uma em uma casa de parentes ou conhecidos por um período de tempo, até a situação melhorar. Terezinha morou dos três anos até os seis na casa de conhecidos da família. “Morei três anos com a Dona Maria, seu esposo e sua filha em um sítio. Eu era bem pequena e não lembro muito bem, mas sei que fui bem cuidada”.

Quando a situação melhorou, e as crianças já estavam maiores, Zemira conseguiu reunir novamente os filhos. Aos sete anos, Terezinha e a família se mudam para a zona urbana. A doença do pai pediu essa mudança, e todos foram tentar novas oportunidades na cidade. Em 1979, Marcelino faleceu. Na época, Terezinha tinha 13 anos e assumiu a casa. Sétima filha de oito irmãos, ela cuidava do irmão menor, fazia o trabalho doméstico e a comida enquanto os mais velhos e a mãe trabalhavam fora.“Sempre trabalhei e estudei, andava quilômetros para ir a escola, lá no Naya Gonzaga. E na volta sempre tinha o serviço doméstico me esperando. Era assim até na época do Magistério”.

Na época, o Magistério unia o ensino médio e a habilitação para exercer a função de professor. “Foi uma das poucas alternativas que tive. Não tinha dinheiro nem emprego, e sabia que precisa estudar. Acho que fiz uma boa escolha, querendo ou não, é o magistério que me sustenta até hoje. Claro que fiz pós-graduações, mas o magistério foi a base”.

Terezinha Andrighetti Nava

“Primeiro os estudos, depois você pensa em casamento”. Ela é casada há 23 anos e tem dois filhos. O casamento aconteceu em janeiro de 1989, depois de concluído o magistério e do emprego como professora já garantido. “O estudo, a formação são importantíssimos. Sempre pensei em ter uma família só quando eu pudesse sustentá-la”.

Terezinha é professora concursada da educação infantil, trabalha com crianças de três a seis anos na Escola Municipal Sonho Encantado e também na Escola Estadual Ulisses Guimarães.“Meu primeiro emprego foi em uma escola rural em Rio das Antas, município a 18 km de Caçador. Todas as manhãs eu pegava o meu fuscão e ia até a entrada da zona rural, de lá eu pegava carona com o ônibus escolar até a escola. Na volta fazia a mesma coisa. Sempre corri atrás do que queria, seja no trabalho ou para ajudar as pessoas”.

O curso para bombeiros foi uma das oportunidades para ajudar quem estava precisando. “Sinto-me bem quando posso fazer alguma coisa por alguém em um momento difícil. Quando você vê as pessoas machucadas e muitas vezes desesperadas, é ótima a sensação de poder fazer o bem, de confortá-las de alguma maneira”.Foi por essa razão que ela se inscreveu para ser voluntária no corpo de bombeiros. Foram horas de aulas teóricas, sábados dedicados ao curso e aos estágios, além de domingos reservados a ‘tarefa de casa’. Desta, até os filhos participavam, eram eles os acidentados fictícios que precisam de massagem cardíaca, aferimento da pressão sanguínea e o feitio de curativos.A dedicação ao corpo de bombeiros foi reconhecida no fim de 2011, quando Terezinha recebeu a homenagem como uma das mais antigas bombeiras femininas ainda em atividade.

Novo desafio

“Vou me candidatar ao cargo de vereadora”.

Outra vez uma frase iniciada em “Vou…” eprevisão de outra mudança. Foi assim que iniciou a conversa em uma noite qualquer e que deixou a família perplexa: “serei candidata. O partido me convidou e eu aceitei, assim como voluntária nos bombeiros, será uma forma de fazer a diferença, ainda que pequena”.

A função do vereador é fiscalizar os gastos e orçamentos do poder executivo, elaborar leis municipais e ouvir as pessoas, exercendo a função de meio entre a população e o prefeito. “Todos temos uma vida pública. Quero exercê-la de maneira mais representativa, e a melhor forma é me candidatar”. Para isso, Terezinha precisou se afastar das atividades na corporação e nas escolas entre os meses de julho e outubro. “Bom, se eu não ganhar, pelo menos terei um descanso”.

Caçador possui 70 mil habitantes e 50 mil eleitores. A câmara legislativa é composta atualmente por 10 vereadores, mas para o próximo mandato serão 13. Eleitos com no mínimo 300 votos. “Eu sei que é difícil, principalmente porque sou novata, mas não vou desistir”.

Embora esteja longe dos bombeiros e dos alunos, Terezinha continua com muitos compromissos. São reuniões do partido, gravações de jingles, e assim que ficarem prontos, a distribuição de santinhos. “Vou chamar toda a família e sair por ai buzinando e entregando cartãozinho. Vamos também ficar na avenida e fazer propaganda”. Se ela ganhar, assumirá a cadeira na câmara e deixará de dar aulas na escola municipal, “exercerei minha função de cidadã do município não mais como professora e sim como vereadora. Mas, se for possível conciliar, pretendo continuar a dar aulas na escola estadual”.

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